Um sorteio é justo quando três coisas são verdade ao mesmo tempo: a regra existia antes do sorteio, o resultado era imprevisível para quem sorteou, e qualquer participante consegue conferir depois. Faltando uma, o sorteio pode até ser honesto, mas não é demonstrável, e é a demonstração que evita a discussão.
1. A regra escrita antes
Escrever a regra depois de conhecer os participantes é o erro mais comum, e o mais difícil de defender. Antes de sortear, deixe registrado em algum lugar que os participantes consigam ver:
- quem pode participar e o que vale como inscrição válida;
- quantos ganhadores e, se houver, quantos suplentes;
- se uma pessoa pode ser sorteada duas vezes;
- a data e o método do sorteio;
- o prazo para o ganhador responder e o que acontece se ele não responder.
O item dos suplentes é o que mais salva sorteio. Sem ele, ganhador que some obriga a um segundo sorteio sem regra, e aí a desconfiança aparece com razão.
2. O sorteio precisa ser imprevisível de verdade
Aqui mora uma diferença técnica que quase nenhum sorteio online explica, e que muda a confiança no resultado.
A maioria dos geradores de número em página web usa a função Math.random do navegador. Ela é rápida e serve bem para animação, embaralhar um carrossel ou escolher a cor de um gráfico. O que ela não promete é duas coisas que um sorteio precisa: distribuição uniforme garantida e imprevisibilidade. O navegador pode implementá-la como quiser, e a sequência que ela produz é, em princípio, reproduzível.
O caminho correto é a interface criptográfica do navegador, crypto.getRandomValues, feita justamente para quando o resultado precisa não ser antecipável.
O detalhe que quase todo mundo erra
Mesmo com uma fonte criptográfica, existe uma armadilha. O jeito intuitivo de tirar um número entre 1 e 10 a partir de um byte aleatório é pegar o resto da divisão por 10. Só que um byte vai de 0 a 255, e 256 não é múltiplo de 10: os restos de 0 a 5 aparecem 26 vezes na faixa e os de 6 a 9 aparecem 25. O resultado é um sorteio que favorece os primeiros números, pouco, mas sempre.
A correção é descartar os valores que caem na faixa que sobra e sortear de novo. É rápido, e é o que faz a distribuição ficar realmente uniforme.
O sorteador de números do portal faz as duas coisas: tira os números de crypto.getRandomValues e descarta a faixa enviesada. O mesmo vale para o sorteador de nomes e para o sorteador de comentários do Instagram.
3. A prova que o participante consegue conferir
Prova de sorteio não é o print do resultado. Print se refaz. O que serve é o conjunto de informações que permite a outra pessoa chegar ao mesmo lugar, ou pelo menos verificar que nada mudou no meio do caminho.
O mínimo que vale registrar, no momento do sorteio:
- a lista de participantes, do jeito que entrou, e quantos eram;
- a faixa ou a quantidade sorteada;
- o resultado completo, incluindo suplentes;
- data e hora.
Gravar a tela durante o sorteio, em vez de fotografar depois, resolve a maior parte das dúvidas: o vídeo mostra a lista entrando, o clique e o resultado aparecendo, na mesma tomada.
Sorteio em comentário de rede social
O caso do Instagram tem uma dificuldade própria: a lista de participantes muda enquanto você olha. Comentário novo entra, comentário apagado sai, e duas pessoas que exportarem a lista em horários diferentes terão listas diferentes.
O que resolve é fixar o momento: anuncie que a lista vale até um horário determinado, exporte nesse horário, e trate a lista exportada como a lista oficial. Daí em diante o sorteio é sobre um arquivo que não muda mais.
Cuidado com a regra de "marque dois amigos": ela multiplica os comentários de uma mesma pessoa. Decida antes se cada comentário é uma chance ou se cada pessoa é uma chance, e diga qual das duas na regra. As duas são defensáveis; o que não é defensável é decidir depois de ver quem ganhou.
Os erros que estragam um sorteio honesto
- Refazer "porque deu estranho". Se a regra não previa refazer, refazer invalida o sorteio, mesmo com a melhor das intenções.
- Sortear sem a lista fechada. Participante que entra durante o sorteio é a brecha mais fácil de apontar.
- Mudar a quantidade de ganhadores depois. Acontece quando sobra prêmio, e destrói a confiança mais do que o prêmio extra constrói.
- Prometer transparência e não publicar nada. Vale menos do que não prometer.
O resumo
Regra escrita antes, sorteio que nem você conseguiria prever, e registro que o participante consegue conferir. O resto é detalhe de organização, e a ferramenta certa cuida da parte difícil, que é a aleatoriedade sem viés.